20 de dezembro de 2010

Regresso atribulado

Saí do meu local de trabalho às 17:30h. Chovia torrencialmente, em Lisboa. A chuva era tão forte que optei por fechar o guarda-chuva. Dirigi-me à paragem do 709. Cerca de 15 pessoas aguardavam, impacientes, a chegada do autocarro. A espera foi longa. O trânsito estava caótico. Como sabem, as paragens de autocarro têm uma óptima (?!?) protecção. Qualquer tentativa que alguém pudesse querer fazer para se abrigar da chuva batida pelo vento, seria frustrada. Nestes casos, é sempre preferível ficar do lado de fora da paragem, à chuva. Ficamos ensopados mas não temos que estar encavalitados uns nos outros. Esperámos 20 minutos. Ao meu lado estava uma senhora. Junto dela, um carro de bebé coberto por um plástico adequado. Um menino, com cerca de seis meses, chorava assustado com o barulho provocado pela queda das gotas de chuva na capa plástica que o protegia. A mãe, desesperada, não sabia o que fazer. Tentou acalmá-lo, em vão. O autocarro chega finalmente à paragem. As pessoas aglomeram-se junto à entrada. Empurram e tentam forçar a passagem. Ninguém quer continuar na paragem, à chuva, mais 30 minutos. Uma jovem "explode": "Que falta de civismo! Caramba!"
Um senhor, mais idoso, protesta: "É sempre a mesma coisa. Todos querem ser os primeiros a entrar. Se houvesse filas para a morte de certeza que gostariam de ser os últimos". Fez-se silêncio.
Seguem-se 20 minutos de "pára-arranca". No interior do autocarro as pessoas começam a soprar...
"Só faltava isto..." dizia alguém. "Já me arrependi de ter entrado no autocarro", protestou outro.
Um senhor, já à beira de um ataque de nervos ordena à motorista que ponha o autocarro em marcha. Missão impossível. O espaço existente entre o autocarro e o carro da frente era de 10 centímetros.
Toca um telemóvel. A moça atende e prossegue o diálogo: "Sim. Não me digas nada. Ainda estou no Marquês de Pombal. Estou à uma hora fechada num autocarro, numa fila de trânsito. Por este andar chego a casa por volta das 22h. Estou stressada, pois! Achas que é para menos? E pensar que pedi à minha chefe para sair um pouco mais cedo do trabalho. Tenho uma frequência amanhã e preciso de estudar. Sim, estou mesmo mal disposta. Para ajudar à festa o guarda-chuva partiu-se. Estou toda molhada. Ok, eu quando chegar dou-te um toque."
Quando cheguei à estação dos barcos o barco tinha acabado de partir. Mais alguns minutos à espera... 
Depois de passarmos diariamente por este tipo de situações e durante anos a fio, começamos a ter pouca vontade de sair de casa. Desgraçadas das pessoas que se vêem obrigadas a utilizar os transportes públicos.
De facto, só quem vivencia estes episódios é que sabe dar valor às dificuldades que a maior parte dos trabalhadores têm de ser capazes de contornar e ultrapassar para poderem cumprir os seus deveres profissionais, nomeadamente, os horários de trabalho. Ainda assim, e se têm a pouca sorte de chegar atrasados, são chamados à atenção por um superior hierárquico que mora a 15 minutos do local onde trabalha, tem motorista particular para o transportar de casa para o serviço e vice-versa e, em alguns casos, em viaturas do Estado. Pagas por todos nós.
Confesso que há situações em que sinto uma vontade ENORME de pôr a mãozita à cintura e de fazer rodar a baiana mas, em regra, o bom senso acaba por imperar. Oh, Deus!!!!!!!!

3 comentários:

  1. O governo deste país é que precisava de um TGV.... mas era para ABALAR a alta velocidade daqui!!!!

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  2. Adoro a forma como descreves os teus momentos, lembras o Cesário a descrever Lisboa. Só tu miga. é por isso que ando de Vespa faça sol ou um tremendo dilúvio, prefiro chegar molhado mas a horas ou sem desperdicio de tempo. Já andei mto de transportes e sei bem o que isso é, mas no meio desta tua conversa toda fiquei preocupado foi com o Bébé... como ficou ele e a mãe claro?
    bjinho e obg por estas tuas dissertações ;)
    Jorge Marques

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  3. Olá meu amigo Jorge ;)
    Eu é que agradeço a tua presença assídua aqui, no RegistoCriativo.
    A mãe e o bebé foram auxiliados por nós. Entraram no autocarro e seguiram viagem. A criança não parava de chorar.
    A vida não é fácil. Como eu valorizo estas pessoas.
    Beijinhos Jorge. Feliz Natal e um excelente 2011. Tudo de bom para ti e família (^_^)

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